Brasilia: Educação ressocializa na penitenciária feminina do DF

Professores apresentam dentro e fora das celas de aula novas possibilidades de libertar a mente e refletir o futuro

Dos corredores às celas de aula, como são chamados os espaços de ensino da Penitenciária Feminina do Distrito Federal (PFDF), as internas percorrem um caminho para a liberdade. É assim que as Julietas Encarceradas descrevem a educação considerada prisional. A companhia de teatro é um projeto que surgiu sob a direção do professor Timótheo Porto, somando ideias das internas. Elas apresentaram esta semana a peça que leva o nome do grupo e retrata o romance mais famoso de Shakespeare, Romeu e Julieta, nas versões passado e futuro.

Na apresentação, a Julieta de outro século ganha o tom original. Já no futuro, a personagem carrega as mesmas angústias, os sentimentos de perda, abandono e incapacidade das mulheres em restrição de liberdade. A releitura fala muito sobre o amor próprio. E a interna Ivana Vargas garante que essa é uma das maiores conquistas com a arte por trás das grades. “O teatro nos permite sonhar. A gente pode viver uma personagem que não está presa. Ela está solta, livre”, disse emocionada.

Essa é uma das atividades de ressocialização pelo sistema educacional realizada na PFDF. Raquel Mota (26) está presa há quatro anos e meio. A artista, que toca mais de quatro instrumentos e é formada pela Escola de Música de Brasília, já está prestes a sair da cadeia. “As pessoas chamam este lugar de ‘escola do crime’, mas é um choque de realidade. Aqui, eu pude conhecer o melhor de mim”, contou. A educação na penitenciária, segundo ela, fez toda diferença. Hoje Raquel dá aulas de coral, canto e violão na Penitenciária.

Professor do sistema prisional desde fevereiro de 1996, Timótheo Porto lida diariamente com as questões existenciais das alunas. Para o docente, a criação coletiva determina o modelo do teatro ensaiado e apresentado pelas internas. “Apenas trago a proposta e vamos construindo juntos”, explica. Essa foi a primeira vez que as internas apresentaram uma peça aberta para a comunidade.

A ideia da peça é refletir as realidades e coincidências das Julietas do passado e presente. Foto: Mary Leal, Ascom/SEEDF

O ritmo é próprio na penitenciária. Os projetos educacionais precisam ser bem pensados para não atrapalhar outras áreas. Mas a diretora da PFDF, Rita Gaio, há seis meses no comando, garante que há menos obstáculos na interação das internas com os professores do que na relação com os agentes, o que facilita a inclusão. Para Rita, essas mulheres precisam ser devolvidas com vida às famílias e a educação impacta na entrega.

Ao todo, seis unidades prisionais – cinco masculinas e uma feminina – atendem 1.550 estudantes do CED 01 de Brasília. Na penitenciária feminina são 154 alunas, número que varia de acordo com o semestre e até mesmo com o número de agentes efetivos que fazem o acompanhamento das internas para as chamadas celas de aula.

Todas as disciplinas são contempladas na modalidade Ensino de Jovens e Adultos (EJA). Pela manhã, ensino fundamental. Já na parte da tarde, as estudantes cursam o ensino médio. “As aulas são diárias, das 8h às 12h e das 13h às 17h. Temos também turmas de alfabetização nos dois períodos”, explica o diretor do CED 01, Wagdo da Silva Martins.

ENSINO E PROFISSIONALIZAÇÃO

Segundo a Diretoria de Educação de Jovens e Adultos (DIEJA), quanto maior o número de presos envolvidos nas atividades educacionais, em projetos ou trabalhando, melhor é a relação interpessoal dentro do sistema, menos suscetível a rebeliões. E o objetivo é avançar em 2020.

“Os presos ficam, em média, oito anos no sistema, conforme dados nacionais. Quando eles saem com oportunidades, toda a sociedade ganha. Dessa maneira, profissionalizados, as chances são maiores porque reduz a reincidência na vida de crimes”, avalia a diretora de Educação de Jovens e Adultos, Lilian Cristina Sena.

 

Nathália Borgo, Ascom/SEEDF

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