Atendentes de fast food contam lado sombrio da Black Friday

Resultado de imagem para burger king 3 por 5Primeiro, o Burger King oferece 6 sanduíches por 15 reais. O McDonald’s contra-ataca com 2 lanches clássicos por 4,90 e 10 cheesebúrgueres a 20 reais. Como se trata de uma batalha, o BK melhora a oferta — agora, são 3 por 5. As redes sociais vibram com a “guerra dos fast foods” na black friday. É o dia de tirar a barriga da miséria.

Mas lanches não se fazem sozinhos. Por trás do balcão, há pessoas sobrecarregadas com a avalanche de pedidos. Ao longo da sexta sombria, os relatos vão surgindo. “Minha gerente já mandou vir com a barriga abastecida. Brecar [parar para descansar e comer], nem pensar”, conta uma atendente de rede de fast food. Uma funcionária do Burger King comemora o 13º na conta. Mas ressalva: “Se estivermos vivos depois da black, a gente gasta”.

“Somos submetidos a um estresse enorme”, conta Tali Morais, que também se apresenta como ex-Mc Donalds. “Alguém não para de gritar ‘agilidade, agilidade’, os clientes não param de reclamar que o lanche vem de qualquer jeito. Eles querem algo rápido, outras 50 ou mais pessoas também.” Bruna Rosa, que se identifica como funcionária BK, desabafa (“Essas promoções absurdas que colocam a gente em situações de extrema humilhação, desequilíbrio emocional, estresse excessivo, pressão psicológica”) e brinca com a oferta da concorrência (“Quarterão a 1 real? Olha, gente, que delícia! Aproveitem bastante.”).

Os relatos dos empregados no setor de fast food explicam como funciona a varinha de condão da black friday. O preço, afinal, é o valor que cobre a matéria-prima, despesas fixas (aluguel, água, luz), variáveis (impostos e comissões) — e óbvio, inclui algum lucro. Quando tem promoção, é preciso cortar em alguma linha de custo. Ou, o que dá no mesmo, fazer alguém trabalhar mais, talvez muito mais, para receber a mesma coisa. Para dizer de forma clara: o frenesi consumista só se torna possível pela exploração dos trabalhadores.

Os que realizam serviços braçais são os mais atingidos. Com o comércio on-line, boa parte desse trabalho fica escondido em galpões longe dos olhos do público. O exemplo da Amazon é emblemático: reportagem publicada pelo site Digilabour, entrevistando o pesquisador Alessandro Delfanti, professor de Cultura e Novas Mídias da Universidade de Toronto, no Canadá, mostra que, para dar conta do ritmo acelerado, a própria empresa incentivaria a rotatividade de pessoal e a demissão após alguns meses de trabalho.

Não à toa, a gigante das vendas pela web é o alvo específico de protestos contra a Black Friday na França. Como noticia o Le Monde, o imenso centro de logística em Brétigny-sur-Orge amanheceu fechado por manifestantes ambientalistas. No Brasil, não há registro de protestos, mas as manifestações virtuais estão a poucos cliques. No grupo BK da Depressão, trabalhadores postam fotos de filas intermináveis, linhas quilométricas de hambúrgueres na grelha, panelões com bacon frito e reclamações de que o Mercado Pago “já deu pau”. Impressiona um pedido para viagem: 180 Big Kings, 100 Whopper Jr. BBQ, 25 Chicken Sandwiches, 40 BK Cheddar Duplos. “Segura essa comanda, já sentava e chorava”, diz um comentarista. “Imagem de sofrimento”, concorda outro. “Vai trabalhar pra po…, eles nem aumentam o salário ou dão um bônus para quem se matou”, resume um terceiro.

É de se perguntar quem precisa almoçar 10 cheeseburgueres ou deglutir três especiais de frango empanado e maionese. No dia mundial de comprar em excesso o que não se necessita, o consumo consciente passa longe. Ao menos um apelo viralizou. “Galera, por favor, em dias assim a carga de estresse e a pressão em cima dos funcionários é muito grande. Então, tenham empatia, sejam educados e compreensivos que pode haver uma demora fora do habitual por conta da grande demanda”, diz o texto compartilhado mais de 50 mil vezes no Facebook. Evandro Nery, o autor, se identifica como ex-funcionário do Mc Donalds. E pede: “Tenham respeito ao ser humano que está lá batalhando para ter seu ganha-pão.”

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